UMA GUITARRA NO TOM - CJUB
29 de Setembro de 2009 @ 14:53 por Leo CouraTom Jobim morreu sem avisar em 1994 – precisamente dia 8 de dezembro, Hospital Mount Sinai, Nova Iorque. Como se houvesse um acordo entre as partes, geográficas inclusive, sua obra musical rejuvenesceu. E assim se mantém, adolescente. No Brasil e no mundo o songbook do maestro foi explorado, revisitado, relido. Também pelos jazzistas, que sempre sugaram essa fonte generosa. Lee Ritenour (A Twist Of Jobim), Joe Henderson (Double Rain), Stefano Bollani (Falando de Amor), European Jazz Trio (Saudade- parcialmente), Brian Bromberg (In The Spirit Of Jobim), Eliane Elias (Plays & Sings Jobim) e Fred Hersch (Plays Jobim), entre outros, reconstruíram como bem entenderam os clássicos jobinianos. Pelas bandas de cá não foi diferente. Toninho Horta (From Ton To Tom), Toninho Horta & Joyce (Sem Você), Ivan Lins (Jobiniando - parcialmente), Fátima Guedes (Outros Tons), Marcos Resende (About Jobim And Other Masters – parcialmente) são alguns casos. Poderia ser mais. Se não fosse pela dificuldade e desafio que a música de Jobim requer. Não basta ser apenas mais um disco de bossa-nova. Há que se acrescentar alguma coisa, um novo condimento, adubo, nem que seja para mudar a cor original, ou, no mínimo, como dizem os franceses, um ton sur ton.
No pipocar da revolução, 1964, Wanda Sá e Roberto Menescal fizeram um disco marcante da bossa-nova, Vagamente – o tratamento acústico natural de um estúdio impediu que o barulho das ruas fosse registrado nas gravações. Ainda nesse clima, em dezembro, o país recebeu um garoto de Buenos Aires, que, ato contínuo, se apaixonou pela nossa música – a outra paixão, o Botafogo, seria óbvia. Victor Biglione se transformou num dos grandes e mais originais guitarristas brasileiros. Detalhar sua trajetória não há porque, é desnecessário aqui. A não ser o fato de ter participado de uma das produções do CJUB, no antigo Mistura Fina, via David Benechis. O que vem ao caso é o seu último CD, Uma Guitarra No Tom (Delira Música, 2009). Ao lado de Sérgio Barrozo (baixo) e André Tandeta (bateria), Biglione retoca – dar retoques em – a música de Jobim.
Quando Nat Cole em 1937, com Oscar Moore e Wesley Prince, quase que oficializou a formação de trio, o jazz agradeceu. De lá para cá, piano, baixo e bateria marcam o formato. A substituição eventual do piano pela guitarra não é tão comum. E foi por aí a idéia inicial de Biglione. “Mudei certas harmonias e realcei alguns elementos melódicos, mas sem cair naquela coisa exagerada da desconstrução”. Houve também a intenção de não se remeter aos álbuns antigos dos trios brasileiros. “A levada da bateria, por exemplo, não poderia ser nem Édison Machado, nem Milton Banana, nem Dom Um Romão”. E nem poderia. A atmosfera do trabalho traz um tempero claramente jazzístico. Esse foi o diferencial nas performances de Biglione, Barrozo e Tandeta. “Só posso desejar que o trabalho de escutar seja tão prazeroso prá você quanto foi para nós gravar esse disco”, diz Tandeta. A simples audição de Ligia, que abre o CD, é mais que suficiente para perceber que os objetivos da difícil missão foram integralmente alcançados. Tandeta é um baterista correto, sensível, preciso, que deixa os parceiros à vontade, seguros. O mesmo em relação ao Barrozo – “Sergio foi fundamental na bossa nova, gravou com todo mundo. É um âncora, importante para conseguir um resultado meio beco, mas que não caísse naquela coisa de resgate de sonoridade antiga”, diz Biglione.
Uma Guitarra No Tom é agradável e criativo do inicio ao fim. Tem todos os ingredientes que fazem um disco definitivo, obrigatório. Não é por acaso que Biglione se emocionou com a inigualável crítica do nosso LOC. Não é por acaso que o show de lançamento na Sala Baden Powell foi gravado e logo será exibido pela TV Brasil. Não é por acaso que a Delira está analisando propostas para a edição em praças internacionais. Não é por acaso que o nosso Sazz confessa: “Considero uma das melhores ou a melhor homenagem ao nosso maestro soberano na forma de trio”. An passant, Pat Martino, na minha opinião uma das boas influências de Biglione, assinaria esse CD com louvor. A música brasileira agradece.
http://charutojazz.blogspot.com/2009/09/tom-sur-tom.html













