O GLOBO - 06 de Abril de 2007 (Antonio Carlos Miguel)
Mestre de samba-jazz, Mauricio Einhorn volta com dois CDs, um ao vivo e outro com temas inéditos.
É dele a frase, popularizada nos anos 70 por Tom Jobim, que dizia que a saída para o músico brasileiro estava no Aeroporto do Galeão. Mas, com exceção de breve período nos EUA, a convite de Sérgio Mendes, em 1972, e de eventuais shows na Europa, o carioca Mauricio Einhorn não seguiu sua máxima. - Eu estava prestes a conseguir um visto de trabalho, tinha uma carta de Frank Sinatra ao governo americano intercedendo por mim, mas problemas particulares me fizeram voltar ao Brasil. - lembra Einhorn, que conseguiu a carta de Sinatra graças ao letrista preferido da “Voz”, Sammy Cahn. Perto dos seus 75 anos de vida (que completará em 29 de maio), e 60 como profissional da gaita, ele pretende comemorar as duas datas com muita música. No estúdio do tecladista e produtor Ricardo Leão, na Barra da Tijuca, Einhorn trabalha num disco que, além do virtuose da gaita, mostra o grande compositor, co-autor (ao lado de parceiros como Durval Ferreira, Bebeto Castilho e Regina Werneck) de canções que estão entre os clássicos do samba-jazz como “Batida diferente”, “Estamos aí”, “Tristeza de nós dois”, “Nuvem” e “Sambablues”. - Mas nesse disco, para o qual ainda não temos título definido, só vou gravar músicas inéditas, são 12 faixas - diz Einhorn, que acumula cerca de 350 composições, das quais não mais do que 40 foram registradas em disco.
*Gravadora Delira vai lançar dois discos de Einhorn*
Sua gravadora, a independente Delira Música, também programa um segundo volume do disco “Conversa de amigos”, do Mauricio Einhorn Quarteto, gravado ao vivo em julho de 2002, num tributo aos 80 anos que Toots Thielemans completava na época o primeiro volume foi editado há dois anos, e, ao lado do pianista Alberto Chimelli, do baixista Luiz Alves e do baterista João Cortez, Einhorn interpreta standards que estão no repertório do gaitista belga. - Como eu dizia nos shows, escolhemos clássicos que Toots gravou e também alguns que ele deveria ter gravado. É realmente o maior gaitista do mundo. Me correspondo com ele desde 1962, e quase desisti da gaita quando o vi ao vivo pela primeira vez. Mas percebi que estava sendo radical, e que eu tinha algo pessoal, o balanço da música brasileira. Filho de judeus austríacos, Einhorn aprendeu o instrumento ainda criança, com seus pais. Na adolescência, participou de programas de calouros, e, em 1947, aos 15 anos, foi contratado pelo programa das Gaitas Hering, na Rádio Tupi. - Além da música brasileira da época, ouvia jazz, orquestras como as de Glenn Miller e Tommy Dorsey - conta Einhorn, que, em meados dos anos 50, passou a participar das canjas no bar do Hotel Plaza, em Copacabana, onde se apresentavam os pianistas Luiz Eça e Johnny Alf, e juntou-se aos músicos que modernizaram a canção brasileira. - Depois também estudei com Moacir Santos e comecei a compor e a gravar. Pelas suas contas, Maurício Einhorn fez 2.500 participações em discos, incluindo trabalhos com Baden Powell (no clássico disco “Tempo feliz”), Elizeth Cardoso, Maria Bethânia, Vitor Assis Brasil, Chico Buarque, Claudete Soares, Gilberto Gil, Eumir Deodato, João Donato, Sebastião Tapajós, Gilson Peranzzetta, Hermeto Pascoal, Jim Hall, Ron Carter, David Sanborn, Monty Alexander e Toots Thielemans.
*César Camargo Mariano fez seis arranjos no disco *
No disco de inéditas, seis das faixas com arranjos do pianista César Camargo Mariano - Não é pelo fato de eu estar na frente dele, mas César é o melhor arranjador desse planeta - desmancha-se Einhorn -, brilha tanto o gaitista quanto o compositor. - Procurei realçar o lirismo de Einhorn, que é um impressionante melodista. Eu já tinha encontrado com ele em shows, mas nunca tínhamos trabalhado juntos em estúdio - conta Mariano, que, residindo em Nova Jersey, passou duas semanas no Rio dedicado às sessões desse disco. - Eu tinha recebido as demos pela internet e vim para o Brasil com os arranjos prontos. Ao lado de Einhorn e de Mariano está uma banda formada por Marcelo Mariano (baixo), Jurim Moreira (bateria), Armando Marçal (percussão) e Ricardo Silveira (guitarra). Também participam do disco instrumentistas como Vittor Santos (trombone e arranjos de dois temas) e Jessé Sadoc (trompete): - Cheguei a chorar ao ouvir essa garotada. Trabalhar com esses novos e tão bons músicos foi um grande presente - diz Einhorn, que já tem data marcada para o show de lançamento dos discos, 12 de julho, na Sala Cecilia Meireles.
