Entrevista de Marcelo Pera ao Jornal Opção de Goiânia
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ENTREVISTA - MARCELO PERA
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Gravadora que começou suas atividades como selo especializado em música instrumental brasileira, cria selo de blues e parece não se abalar com a crise do mercado fonográfico
ADALTO ALVES - Especial para o Jornal Opção
O músico e economista carioca Marcelo Aguiar Pera, 39, entrou numa encrenca no final de 2003. Ele ficou sócio da jornalista Luciana Pegorer na fundação de uma gravadora. Mas o selo independente Delira Música não é uma gravadora qualquer. É um instrumento dedicado a espalhar a música instrumental brasileira por todos os cantos. E, como se a encrenca fosse pequena, Luciana e Marcelo inauguraram a Delira Blues em 2007. Comemoram dois anos de subsidiária nesta data querida. Com apenas quatro lançamentos, é verdade (Blues Etílicos, Flávio Guimarães, Maurício Sahady e Álamo Leal). Média baixa? Tente fazer o mesmo nos tempos obamicos. O que importa é a qualidade. E a qualidade da Delira (Blues) é, acima de tudo, muitos pontos acima da média. Os planos não param, claro, por aqui, apesar da montanha-russa dos valores. Marcelo fala um pouco sobre o futuro da encrenca na entrevista a seguir. Ouvidos delirantes agradecem o aparecimento de novos encrenqueiros.
A Delira Música trabalha exclusivamente com música instrumental. A Delira Blues trabalha exclusivamente com blues. O mercado não está pra peixe. Como vocês enganam o psiquiatra?
O fato é que a Delira já nasceu dentro da crise do mercado, buscando alternativas para escoar a grande e intensa produção musical brasileira. Ou seja, já entramos no mercado desafiados pela sorte. Se entrasse nessa e produzisse uma música que não fosse do meu gosto, aí o psiquiatra já estaria milionário. Em tempo, hoje a Delira Música abriu um pouco mais o seu leque, e lança também compositores da nova geração.
Com o lucro obtido com a venda dos discos lançados pela Delira Blues dá pra encher o bolso de gaita?
Definitivamente, não. O que fazemos é aproveitar a nossa estrutura para trabalhar com serviços outros que nos remunerem e dêem sustento ao nosso delírio musical.
A banda base da gravadora mistura Blues Etílicos e Big Allanbik. Qual o tamanho da ressaca?
A ressaca é leve. Esses músicos são realmente brilhantes. Dentro do universo do blues, não conheço quem tenha tanta fluência e propriedade na execução desse repertório. Na verdade, as duas bandas participaram, uma após a outra, do boom do blues nacional ocorrido nos anos 90. Alguns outros músicos dessa época foram ficando pelo caminho, em outras atividades, mesmo dentro da música. Mas o Blues Etílicos continua, como banda fundamental no cenário nacional. Os integrantes do Big se dividiram em carreiras solo, mas são todos amigos que se frequentam. Delira Blues é realmente privilegiada por ter uma banda base formada por três desses personagens: Otávio Rocha (guitarra), Beto Werther (bateria) e Ugo Perrotta (baixo), o Blues Groovers. Não há quem eles não possam acompanhar, sempre com personalidade e competência.
Dá pé fazer blues em português ou é melhor arriscar um sambinha em javanês?
Dá pra fazer tudo em música, claro. Mas o melhor é quando a coisa acontece com espontaneidade e qualidade. O Blues Etílicos notabilizou-se por fazer um mix em seu repertório, que sempre contemplou letras em inglês, em português e canções instrumentais, sem perder o fio da meada. Se a diversidade é a lógica da música brasileira, porque não termos o nosso próprio blues? E fazer dessa interseção a nossa principal virtude?
A Delira Blues, além de tudo, aposta suas fichas em ilustres desconhecidos. Qual a lógica da banca?
A lógica é “se eu vou vender pouco, que ao menos falem bem do que eu faço”. Ou seja, na Delira conta a excelência artística, a qualidade musical. Nem vejo outro sentido em seguir nesse caminho se não for por aí. Que maior contribuição um empresário pode dar no setor da música que não lançar gente nova, lançar ´desconhecidos´ que merecem ser conhecidos? Fico feliz de contrariar a lógica formal e ajudar a despertar ouvidos de um povo que precisa escutar mais seus artistas. Lançar no Brasil o Álamo Leal, que viveu 30 anos na Europa, ou uma nova geração, representada por um artista como Amleto Barboni, traz uma lógica complementar, de extremos aparentes, e que na verdade evidencia a riqueza da música brasileira.
Houve um boom de blues no Brasil nos anos 80/90. Por que esse movimento implodiu?
Isso pode provocar certa polêmica, mas algumas coisas precisam ser ditas. Fique claro que não há uma regra, mas a verdade é que o blues tem uma raiz harmônica simples. Qualquer músico principiante pode tocar um blues. Isso não quer dizer que ele seja um profissional. O blues tem uma respiração, uma cor, um timbre, uma interpretação muito sensíveis. Há uma linha tênue, mas tangível, que separa o ´tocar um blues´ de um mestre dessa interpretação. A cena no início percebeu quem eram esses personagens. E vieram outros depois. Mas com a perda do filtro natural das gravadoras, e da própria crítica musical; com a facilidade tecnológica (principalmente, talvez), a sensação de independência artística trouxe a reboque uma infinidade de resultados amadores que se venderam como profissionais. Temos isso, mas temos muitos outros fatores. Por exemplo, a comunicação passou por uma revolução: TV a cabo, internet, rádios etc. Antes se fazia um artista nacional. Hoje você faz um artista limitado por região. Muito difícil fazer surgir movimentos artísticos de grande vulto na realidade atual, onde a informação é extremamente rápida. Enfim, essa resposta merece um debate à parte.
A internet é vilã ou aliada no desafio de uma gravadora que oxigena um moribundo ancestral?
É aliada, sempre. O vilão é todo o sistema, que não encontra uma forma de preservar os proprietários da grande cadeia da produção musical. Se alguém compartilha música, como, aliás, sempre aconteceu, ok! Mas precisamos reencontrar uma forma de admitir a propriedade intelectual. Sob pena da classe artística ser canibalizada e transformada apenas em gente que trabalha de graça porque a eterna promoção basta como remuneração.
O blues era música de negro e virou música de branco. O que se perdeu e o que se ganhou nesta síndrome de Michael Jackson?
Acho que a miscigenação de raças e culturas é o futuro óbvio da humanidade. Precisamos preservar os aspectos históricos das origens do blues, por exemplo. Muitos vão gostar de deixar seus ouvidos na tradição. E outros, preferirão a experimentação, a mistura. Só se perde quando se abandona completamente as tradições. Isso deve ser considerado sempre. Mas se ganha muito quando se mistura, porque vence a compreensão de universos culturais distantes dos nossos naturais ou inatos.
Você, particularmente, é blueseiro (dizem que não se pode usar esta palavra, mas bluesman é outra coisa) ou entrou nessa só pelo poder e prestígio?
Não sou blueseiro, nunca fui. Como músico eu fiz uma opção até bem distante do blues. Mas ouvi muito o som dos anos 60 e 70 (a melhor produção popular mundial da história!), quando essa raízes do blues eram bem evidentes, principalmente na música norte-americana. E ganhei, nas noites passadas da minha juventude, uma ótima amizade com essa turma da cena blues. Delira Blues nasceu muito pela amizade que tenho com esses caras. Vejo ali homens de muita garra, que amam profundamente o que fazem, e que não medem esforços pra mostrar sua arte. Isso me emociona como homem e isso vem bem antes do empresário. Quero crer que se, hoje, não tenho tempo pra exercitar a amizade porque a dedicação ao trabalho não permite, minha forma de manifestá-la seja esta, a Delira. Talvez tenha algum poder, muito mais pelo que me depositam de fugidia esperança do que por meu direito. Prestígio só entre os amigos, porque não fazemos uma música que dê prestígio no Brasil.
Não se pode manter um projeto por dois anos apoiado somente em prazer pessoal. Como vocês pretendem comemorar os 10 anos do Delira Blues?
Os 10 anos da Delira Blues serão comemorados em 2017 e estão todos convidados! Bom, sei que muitos empresários entram nisso ou pelo glamour, ou fazendo as vezes de mecenas. Não é realmente nosso caso. A gente se desdobra aqui pra tornar a coisa algo lucrativa. E ganhar terreno pra manter o sonho da música. Não posso deixar de ser otimista e, mesmo sabendo que isso é algo utópico, quero pensar que ganharemos ainda mais espaço. Veja que crescemos, apesar da crise, a cada ano, nesses últimos cinco. E uma boa dose de loucura é mais do que saudável pra levar a vida. As compensações são muitas. Até os 10 anos, penso que teremos muito trabalho. E estarei respondendo outra entrevista a você, falando das nossas vitórias. Ainda que sejam pequenas, serão valorosas para muitos.
ADALTO ALVES é jornalista.
Entrevista publicada em www.jornalopcao.com.br