A paisagem instrumental brasileira - Gazeta Digital
Aquiles Rique Reis
Feito pintores expressionistas, no esplêndido CD Buxixo (Delira Música), pianista e violonista relativizam a realidade objetiva do que tocam e revelam a emoção por detrás das músicas escolhidas para registrar neste primeiro encontro.
Creio que cabe aqui uma semibreve biografia de cada um: Gilson Peranzzetta tem mais de quarenta anos de carreira. Pianista, mas também instrumentista múltiplo, arranjador, regente e compositor, firmou profícua e sólida parceria com Ivan Lins, dentre outros. Com dezenas de álbuns gravados, o carioca Peranzzetta tem destacada participação na história da música instrumental. Nelson Faria, mineiro de Belo Horizonte, é professor de música, compositor, arranjador e instrumentista - com vários CDs e livros lançados - requisitado para inúmeros trabalhos com grandes nomes da música brasileira.
Dois músicos cuja trajetória os leva aos caminhos que quiserem ir. Cada trilha aberta à sua frente serve como pentagrama a ser preenchido com notas musicais que lhes revelam a vocação para serem definitivos em suas artes.
Buxixo tem duas músicas conhecidas, “Doce de Coco” (Jacob do Bandolim) e “Estamos Aí” (Mauricio Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck), além de outras dez inéditas. Destas, duas foram compostas especialmente por Gilson Peranzzetta e Nelson Faria para o CD. Tem também quatro apenas de Gilson, três só de Nelson e uma parceria deste com Nico Assumpção.
Meu Deus, que magia resulta de cada improviso, quanta surpresa em cada variação de levada! Indo do buliçoso ao romântico, passando por gêneros caracteristicamente brasileiros, cada canção resulta em delicadeza infinita.
O CD roda. A sintonia entre o violão e o piano é nítida. As quatro mãos lhes dão toques inusitados. Ora a um, ora a outro cabe explorar sonoridades insuspeitadas. Num exercício explícito de humildade, os dois músicos se revezam em solos e improvisos. Cada música é interpretada como se o harmonizador e o improvisador se fundissem ao compositor para levarem-na ao fundo de suas próprias almas, para de lá guiarem-na ao âmago de quem a ouve.
“Buxixo” (Nelson Faria) abre o CD, samba com forte pulsar e marcação acentuada por baixos repetidos ao piano. “Doce de Coco” (Jacob do Bandolim), interpretação de raro encanto. “Pontes” (Peranzzetta) une o piano ao violão. “Rua Bouganville” dá vez à outra bela melodia e a fartos improvisos, e “Caindo no Choro” personifica a diversidade e a naturalidade da música brasileira - ambas, da parceria de Gilson com Nelson.
O bom gosto reina em Buxixo. Quem o ouve pode mesmo imaginar que o duo, em diversos momentos, toca por uma orquestra ou por um regional. Pode-se até acreditar ter ouvido um naipe de cordas. Mas o que ali prevalece é o sentimento vindo da alma do piano e do violão, tocados que são por seus mestres, e a confiança que nos leva a crer na fantasia de que, com a música, quase tudo é possível.
Aquiles Rique Reis, músico vocalista do MPB4
